Não julgue o livro pela capa — especialmente na liderança
Às vezes, a percepção que temos sobre pessoas, cargos e liderança não corresponde ao que realmente acontece.
Alguns dias atrás, durante um webinar, uma consultora de carreira fez um comentário que surpreendeu muita gente no chat. Segundo ela, pela própria experiência, muitas vezes é mais fácil obter resposta de executivos seniores do que de profissionais em níveis mais operacionais quando tentamos retomar um contato de networking.
A explicação não tinha nada a ver com ego ou hierarquia. Era pragmatismo.
Quem chegou a posições mais altas normalmente reconhece o valor das conexões que construiu ao longo da carreira. Muitos sabem, por experiência própria, que não chegaram ali sozinhos. Por isso, tendem a valorizar quando alguém retoma um contato de forma genuína. Já quem está no “corre” do dia a dia, muitas vezes está simplesmente absorvido demais pela própria rotina.
A conclusão da consultora foi simples: às vezes julgamos errado quem estaria disposto a ouvir, responder ou ajudar. É a velha lição: não julgue o livro pela capa.
Curiosamente, anos antes eu tinha aprendido uma versão bem mais dura dessa mesma lição dentro de um time de vendas.
Quando uma nova líder assumiu nossa equipe, uma das primeiras iniciativas dela foi nos entregar um livro sobre comunicação aberta, responsabilização e funcionamento saudável de equipes. A proposta era que todos lessem e discutíssemos os conceitos nas reuniões.
Na época, achei a iniciativa excelente. Sempre acreditei em comunicação direta e em responsabilidade compartilhada dentro de um time. Então me posicionei desde o início, trazendo ideias, opiniões e sugestões para melhorar nosso trabalho coletivo. Se havia um “livro aberto” naquela equipe, eu acreditava ser um deles.
Com o tempo, porém, algo começou a não fechar. Os conceitos do livro falavam sobre confiança, respeito e diálogo franco. Mas, na prática, as reuniões frequentemente eram marcadas por gritos, palavras de baixo calão e tapas na mesa quando os números não estavam onde deveriam estar.
Aos poucos fui percebendo que, para alguns líderes, certos conceitos de gestão funcionam mais como um escudo retórico do que como um compromisso real.
O episódio que mais me marcou aconteceu quando fui comunicar, com antecedência, o nascimento do meu filho, para entender como funcionaria a licença-paternidade e alinhar a organização do trabalho naquele período.
A reação que ouvi não foi um óbvio parabéns. Foi apenas uma demonstração clara de que, naquele momento, o que realmente importava não era o funcionário — mas a disponibilidade para trabalhar todos os dias.
Ali eu entendi algo que nenhum livro de liderança consegue ensinar sozinho. Liderança não é o que você entrega para sua equipe ler, mas o que a equipe lê nas suas atitudes todos os dias.
O modo de falar, o respeito (ou a falta dele), a forma como você reage quando as coisas não saem como esperado ou como responde a um momento importante na vida de alguém do seu time. Essas páginas são lidas com muito mais atenção do que qualquer capítulo impresso.
Durante muito tempo admirei aquela líder quando ela ainda atuava em outro setor da empresa. De fora, a “capa” parecia inspiradora. Mas foi convivendo de perto que aprendi a diferença entre discurso e exemplo.
Hoje, como pai, essa lição ganhou ainda mais peso para mim: filhos também não aprendem pela capa — eles aprendem pelo livro inteiro.
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