Que raiva! Quando a mentira dói mais que a agulha
Outro dia, quando estava me preparando para ir a um posto de saúde com os cachorros, para campanha de vacinação contra a raiva da prefeitura, chamei meus filhos para irem comigo. E quando eles apareceram na porta o mais velho me pegou de surpresa.
Com os olhos lacrimejando, ele soltou: — Não, pai… eu não quero que eles tomem vacina. Eu não quero que eles morram!
Tomei um susto e meu cérebro precisou de uns segundos extras pra entender o que tinha acabado de ouvir.
Eu, que sou farmacêutico, com especialização em biotecnologia e que passo os dias lidando com filtros e equipamentos utilizados, inclusive, na produção de vacinas — ouvi isso do meu próprio filho. Fiquei paralisado! A dúvida dele doía mais do que qualquer picada.
Como é que uma criança de sete anos — cercada de informação, filho de alguém que literalmente vive da ciência — desenvolveu esse medo?
Logo eu, que inclusive também já tomei vacinas contra Raiva para acompanhar testes em indústria veterinária, não consegui evitar de ser consumido por esse sentimento. Não pela insegurança dele, mas por tudo o que ela trazia embutido: o peso da mentira disfarçada de opinião, dos vídeos alarmistas no celular da avó, da desconfiança plantada em conversas entre adultos que deveriam protegê-lo da ignorância, não alimentá-la.
Não o culpo! Nem ele, nem outras crianças. O medo é contagioso — e ultimamente anda circulando mais rápido que muitos vírus. É puro veneno!
Naquele dia, depois da pergunta dele, a vontade foi de puxar um quadro branco, abrir uma apresentação em PowerPoint e explicar tudo sobre imunogenicidade, fases de testes clínicos, e todos aqueles gráficos que fazem sentido pra mim — mas não pra ele. Então, respirei fundo e fui no modo pai mesmo.
Primeiro, esclareci que aquilo era algo a que a gente fazia praticamente todo ano — eu havia perdido a campanha do último ano —, e que ele mesmo tinha me acompanhado outras vezes, portanto não havia motivo para essa preocupação. E reforcei que toda vacina é fruto de anos de estudo, de testes sérios, com gente muito inteligente — como os profissionais das empresas que atendo todos os dias. Afirmei que as vacinas eram um escudo, mais poderoso do que o do Capitão América. Que ele mesmo já tinha tomado mais de 30 vacinas e nunca teve nada… E eu pelo menos umas 50. E que graças às vacinas de hoje, ele não precisava se preocupar com doenças que no tempo do vovô tiravam a alegria e a vida de crianças.
Ele me ouviu. Fez cara de dúvida, mas se acalmou.
Reforcei a ideia de que cuidar da saúde é um ato de coragem, não de medo. Mas confesso: não é fácil disputar com as “verdades paralelas” da internet, compartilhadas no WhatsApp da família. Estamos falhando em proteger as crianças não só das viroses biológicas, mas também dos vírus informacionais. No fim das contas, a vacina mais urgente talvez não esteja em um frasco. Está no pensamento crítico, na escuta atenta, na responsabilidade coletiva de olhar para os dados antes de formarmos as crenças e pré-conceitos.
Eu, da minha parte, sigo tentando vacinar meu filho contra a ignorância — uma dose por dia, sem intervalo.
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