Missão impossível: Natal, Luzes e Metas
O relógio do painel marca quase nove da noite. No banco de trás, dois pequenos sujinhos — pés pretos, cabelos moldados pelo suor, aquele “pós-dia-inteiro” que só criança consegue produzir. No primeiro semáforo, pelo retrovisor, vejo olhinhos prestes a apagar.
E penso: se dormirem agora, estou condenado a dar banho em bonecos de pano que não se sustentam de pé.
E todo pai sabe: criança acordada à força não volta ao modo “anjo natalino” tão cedo — especialmente depois de um banho cheio de drama.
Antes do primeiro bocejo completo, vejo a luz salvadora no fim do túnel:
— Luzinhas de Natal!!!
E já emendo:
— Meta de hoje: cinquenta casas decoradas até chegar na nossa!
— Cinquenta?! — eles protestam, como se eu tivesse anunciado castigo.
— Vocês são feras! Devem achar até mais. Vale janela, fachada, pisca-pisca e até árvore de shopping. Só não vale trapacear.
A partir daí, o carro vira uma equipe de vendas no último dia do mês.
Os olhinhos, antes semicerrados, agora escaneiam a cidade como telescópios procurando estrelas em outras galáxias. E eu, na frente, percebo que meu plano funciona: não há espaço para sono quando a honra matemática da família está em jogo.
À medida que avançamos, as luzinhas vão surgindo — umas tímidas, outras exageradas, algumas piscando como se disputassem atenção com o farol vermelho. Cada descoberta é comemorada:
— ACHEI UMA! Ali, pai! Naquela janela!
— E o mais velho já corrige: duas porque uma janela tem luz vermelha e a outra amarela, não é, papai?!
E assim a rua vira mapa, e as casas iluminadas, metas parciais. E as discussões internas sobre regras — essas nem o Papai Noel resolveria.
Enquanto eles contam, negociam e defendem argumentos com a convicção de pequenos advogados natalinos, penso:
Olha só… no meio da bagunça do dia, da correria do trabalho, dos banhos atrasados e da roupa que ainda nem estendi, estamos aqui. Na missão mais improvável — e mais importante — do fim do dia: transformar o caminho de volta em memória.
Quase no final do percurso, a meta é aumentada antes mesmo de ser batida. Cinquenta viram sessenta. Meu filho, por um instante, me lembrou meu antigo chefe:
uma equipe confiante sempre aumenta a meta antes de entregar.
Quando chegamos na nossa rua, falta apenas uma luz para fechar a missão.
— É só contar nossa árvore da sala! Uhuu!
— Só se o pisca-pisca estiver aceso… — crio a tensão, porque eles já davam como ganho. — Será que está?
Destranco o portão enquanto abro o app para ligar a tomada inteligente.
Ao abrirmos a porta, os olhinhos deles brilham mais que a árvore inteira.
— SESSENTA!!!
— Missão concluída. E o que falta agora pra dormir limpinho?
— BANHO! — eles respondem, rindo.
Entram debaixo d’água saltitando, ainda debatendo se aquela luz da praça deveria valer mais, porque cada palmeira tinha sua própria luz.
E no instante em que deitam, parece que desliguei o interruptor. Dormem tão rápido quanto o Papai Noel viaja na noite de Natal.
Assim, sem grandes planejamentos, metodologias importadas ou quadro Kanban, transformamos um trajeto cansado em aventura.
Luzes em matemática.
Sono em sorriso — o maior milagre natalino que um pai pode receber num fim de noite.
Às vezes, liderar é só isso: colocar uma meta simples, motivar o time e dar luz à jornada.
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