Protagonismo na prática: SOAR consciente em tempos de conflito
Eu estava no meu escritório do segundo pavimento. Currículo aberto na tela do computador. Lá embaixo, silêncio raro em tempos de férias escolares.
Aplicava a metodologia SOAR para organizar minhas experiências profissionais, assumindo o protagonismo da minha própria narrativa: entender cada Situação, definir com clareza o Obstáculo (mas também pode ser objetivo ou oportunidade), descrever minhas Ações e evidenciar os Resultados construídos ao longo de mais de 20 anos de carreira.
Enquanto escrevia, pensava em como a clareza muda tudo. Quando sabemos o que fizemos, por que fizemos e o que construímos, a narrativa faz sentido — para quem lê e para quem viveu.
Mas mal sabia eu que seria recrutado para exercer uma liderança consciente, minutos depois, em casa.
Porque SOAR é um método. Mas também pode ser sobre como a gente decide soar quando lidera — especialmente em tempos de conflito.
A campainha tocou. A amiga da minha esposa havia chegado com o filho pequeno, do tamanho do meu caçula. Acenei da janela.
As crianças logo se acomodaram no tapete da sala, cercadas por brinquedos espalhados, enquanto as duas mães já estavam na cozinha, colocando o papo em dia e preparando algo para todos comerem.
Mas a prosa calma não durou muito.
Situação
Apesar de inúmeras possibilidades à disposição no tapete, crianças sempre querem exatamente o que está na mão do outro. Impressionante! E o outro menino ainda era muito pequeno e, por ser filho único, não tinha desenvolvido com a mesma maturidade a capacidade de compartilhar os brinquedos.
E assim, cada filho gritava pela própria mãe para intervir, em meio a choros e reclamações. Todos frustrados!
A concentração no escritório já tinha ido embora. Desliguei o computador e desci.

Alguns pedem presença
Tentei mostrar outros caminhos: sugerir trocar de brinquedo, inventar outra brincadeira, reorganizar o cenário. E as coisas até se acalmaram — mas por pouco tempo. O milho ainda nem tinha esquentado na panela e os “pipoquinhas” já estavam “estourando“ de novo.
Então, ficou claro que algo mais duradouro precisava ser feito.
Obstáculo
Havia um limite muito claro ali: eu não podia — e nem devia — corrigir o filho de outra pessoa.
Foi então que a mesma clareza que eu buscava no currículo apareceu na paternidade: A situação não era sobre a outra criança. Era sobre como meus filhos poderiam assumir o protagonismo da própria reação.
Educar não é eliminar conflitos. É ensinar a atravessá-los com consciência.
Na liderança — e na paternidade — erramos quando atacamos o alvo errado. E, se eu não podia liderar o outro, precisava liderar melhor os meus.
Meu objetivo, naquele momento, era mais profundo: ensinar empatia sem submissão, ensinar limites sem agressividade e mostrar que frustração faz parte da vida.
Mas como agir sem tentar controlar o que não estava sob meu controle?
Ação
Chamei meus filhos para perto. Reconheci a frustração deles. Expliquei a situação com calma e honestidade:
— “Os brinquedos são nossos, mas o amigo ainda está aprendendo a compartilhar. A gente não pode controlar o comportamento dele, mas pode escolher se isso vai continuar sendo divertido ou chato.”
Não desqualifiquei a outra criança. Não minimizei o sentimento dos meus filhos. Apenas fiz eles refletirem sobre suas próprias ações e emoções.
Ali ficou claro algo que muitos pais confundem: Autoridade não é controlar tudo. É agir com coerência onde existe responsabilidade.
Resultado
Meu mais velho propôs brincar de massinha. E cada um faria seus próprios personagens.

O foco mudou. Os brinquedos deixaram de ser o centro da disputa.
No fim da tarde, estávamos todos sentados no chão, fazendo bonecos de massinha. Criando juntos. Rindo. Elogiando a arte do outro. Sem disputa.
O resultado não foi imediato nem barulhento. Foi silencioso — e profundo.
Na paternidade, o verdadeiro efeito quase nunca aparece na hora. Ele aparece no tipo de adulto que estamos ajudando a formar.
A impressão final
Para mim, que minutos antes tentava finalizar um PDF com minha história profissional usando SOAR, ficou uma outra impressão ainda mais forte:
No fim das contas, paternidade é liderança sob estresse emocional — e o jeito que você decide soar nesses momentos é o que vira legado.
Nem sempre podemos corrigir o comportamento do outro. Mas sempre podemos formar protagonistas sob nossa responsabilidade.
Você já viveu um momento em que não podia educar o outro, mas precisou orientar seu filho? Como lidou? Comente aí, pois pode ajudar outros leitores.
Um grande abraço,
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