Não FOMOs
FOMO é uma sigla em inglês para Fear of Missing Out. Hoje, o termo virou quase uma síndrome que afeta muita gente, principalmente nas redes sociais. Eu como bom mineiro, eu traduziria como “medo de perder um trem”. Porque é exatamente isso: a ansiedade constante de pensar que outras pessoas estão aproveitando experiências incríveis enquanto você está apenas vendo o “trem” passar.
E eu vivi isso ainda em 2015.
Naquela época, todo mundo queria se mostrar nas redes sociais, mas o cardápio era simples: selfie em viagem e foto de prato bonito. A disputa por atenção parecia bem inocente perto do que vemos hoje.
Naquele ano, tive a oportunidade de participar de um treinamento técnico da empresa em Versailles, na França, e a Júlia aproveitou para tirar férias e viajar comigo.
Como o tempo livre após o fim do treinamento era curto, resolvemos fazer um mochilão relâmpago. E, para não deixar nenhum destino dos nossos sonhos de fora, embarcamos em uma EuroTrip Kamikaze — nome que eu mesmo dei à viagem —, já que programamos passar por seis cidades, em diferentes países, em apenas seis dias: Paris, Londres, Roma, Veneza, Atenas e a Cidade do Vaticano (e depois de volta à Paris para pegar as malas grandes e o voo de retorno).
Mas a Júlia queria fazer mais do que apenas viajar. Afinal, para ela aquilo não era exatamente novidade. Em 2008, havia feito um intercâmbio universitário de seis meses em Portugal. Então surgiu uma ideia: aproveitar a viagem para tentar uma guinada na carreira.
Ela combinou com uma amiga, que buscava manter a relevância de uma emissora de rádio, a criação de um pequeno programa para o YouTube da empresa. Seria uma espécie de “diário de mochileiro”, gravado durante a viagem e editado quando voltássemos ao Brasil, inspirado em programas como Vai Pra Onde? e outras produções similares do Multishow na época. Quem era jovem ali, provavelmente se lembra.
Nossa rotina era quase militar.
Acordávamos no meio da madrugada para pegar um avião — ou um trem — rumo ao próximo destino. Passeávamos até o anoitecer — por volta das 20 horas por causa do horário de verão europeu —, seguíamos para um hotel próximo ao aeroporto, dormíamos algumas horas e repetíamos tudo novamente no dia seguinte.
Mas havia um detalhe.
Entre um ponto turístico e outro, gastávamos pelo menos uns 15 minutos — às vezes mais de uma hora — gravando vídeos para o tal programa.
E foi justamente por causa disso que perdemos a chance de subir a Torre Eiffel logo no primeiro dia em Paris.
Ainda assim, apesar do cansaço extremo, o ponto alto da viagem é que conseguimos registrar praticamente tudo. Tiramos selfies em todos os lugares que sonhávamos conhecer e fotografamos os pratos típicos de cada parada da viagem:
- Escargots e crème brûlée aos pés do Trocadéro, em Paris.
- Fish and chips em um pub próximo ao Big Ben.
- Espaguete em uma trattoria perto do Coliseu.
- Pizza em uma viela veneziana.
- Cordeiro assado em uma taberna próxima à Acrópole.
- E até nos deliciamos com os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina.
No último dia da viagem, resolvemos tentar novamente.
Chegamos de viagem após o almoço à Torre Eiffel para a última chance de subida. Mas a fila era absurda. Levamos mais de duas horas para alcançar apenas a metade do percurso. O relógio corria. O sol baixava. A mala ainda precisava ser buscada. O aeroporto nos esperava.
Resultado: pela ganância de não perder nenhum lugar e, depois, pelo medo de perder o trem — ou melhor, o avião — não FOMOs ao topo da Torre Eiffel.
No fim, ninguém assistiu aos vídeos, já que o projeto da rádio minguou. E até hoje não tive mais outra chance de ver Paris em seu ponto mais alto.
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