A conquista erguida nos braços
Durante a Copa do Mundo, um dos principais jogadores da Bélgica deixou a concentração de sua seleção para acompanhar o nascimento do primeiro filho. A notícia correu o mundo e, junto com ela, vieram as críticas. Uma jornalista francesa chegou a dizer que pai “não serve para nada” nesse momento.
Talvez ela tivesse razão, se a cultura ainda fosse a do século passado, quando o pai era visto apenas como provedor e mero espectador do nascimento dos próprios filhos. Esperava no corredor da maternidade, assinava alguns documentos e voltava ao trabalho.
Anos atrás, eu estava em Leopoldina, no interior de Minas Gerais, participando de um evento do setor de saneamento. Era o último dia da feira e, logo cedo, durante o café da manhã, recebi uma ligação da minha esposa. Ela disse que estava sentindo dores e que talvez nosso filho tivesse decidido chegar antes da hora.
Mal terminei o café. Pedi licença, desmontei o estande, coloquei tudo no porta-malas e peguei a estrada. Enquanto dirigia por horas de volta para casa, conversava com Deus com um pedido simples: que Ele me permitisse chegar a tempo.
No fim, era um alarme falso. Nosso filho ainda esperou alguns dias para nascer.
Mas, quando chegou a hora certa, eu estava presente e pude viver cada segundo daquele nascimento. Anos depois, repeti a experiência com a chegada do caçula. Estive ao lado da minha esposa nas duas vezes, segurando sua mão, ajudando no ritmo da respiração ou apenas com o olhar, quando as palavras já não bastavam.
São lembranças que o tempo não desgasta, porque existem momentos que não podem ser transferidos para outra pessoa. Ninguém pode te substituir. Não há replay.
Durante muito tempo aprendemos que a principal responsabilidade de um pai era colocar comida na mesa. Mas filhos também se alimentam de presença, de segurança e da certeza de que, nos momentos que realmente importam, o pai escolheu estar ali.
É curioso como uma Copa do Mundo pode nos ensinar sobre maturidade. Milhões de pessoas sonham em levantar uma taça diante de um estádio lotado, mas pouquíssimos terão esse privilégio.
Existe, porém, outra vitória, silenciosa, sem medalhas, sem torcida e sem transmissão ao vivo. Uma conquista reservada aos que entendem que certos momentos não voltam e que nenhuma carreira, reconhecimento ou riqueza consegue devolver uma ausência.
Seja no nascimento ou nos incontáveis momentos que vêm depois, nossa maior vitória como homens é fazer parte da vida dos filhos. Erguê-los nos braços é a coroação da maior conquista da nossa vida.
E o maior título que um homem pode receber é o de pai presente.
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