Quem é você?
Há alguns dias, enquanto dirigia de volta para casa depois de buscar meu filho de quatro anos na escola, enquanto conversávamos, fiz uma daquelas perguntas que os pais costumam fazer:
— Filho, o que você quer ser quando crescer?
Sem hesitar, ele respondeu:
— Nada.
Sorri e entrei na brincadeira.
— Nada? Então você quer ser invisível? Quer sumir?
Ele olhou para mim com a inocência de quem ainda não aprendeu que algumas respostas deveriam ser complicadas. E disse:
— Não, papai… Quero ser eu.
Confesso que fiquei em silêncio por alguns segundos. Às vezes, uma criança resolve em poucas palavras uma crise que muitos adultos carregam pela vida inteira.
Crescemos ouvindo que precisamos “ser alguém”. Aos poucos, essa ideia vai ganhando sobrenomes: a profissão, o cargo, a empresa onde trabalhamos, a marca que estampamos no crachá. Sem perceber, deixamos de responder quem somos e passamos a dizer onde trabalhamos.
Foi nesse período que percebi o quanto nossa identidade pode ficar terceirizada. Quando o cargo muda, quando a empresa deixa de existir na nossa rotina ou quando o crachá perde a validade, algumas pessoas sentem que perderam parte de si. Não porque deixaram de ser competentes, mas porque passaram tanto tempo se definindo pelo lugar que ocupavam que esqueceram de reconhecer quem eram antes dele.
Ao longo da carreira, sempre que iniciava um contato com um novo cliente, minha apresentação era quase automática: “Sou o Luiz Fontes, da…”. O nome da empresa parecia completar a frase, como se fosse ele que me concedesse legitimidade. Até que veio uma transição de carreira e, de repente, aquela continuação desapareceu. Curiosamente, não era apenas o mercado que precisava se acostumar. Eu também.
É curioso. Um CNPJ costuma abrir portas, transmitir credibilidade e facilitar apresentações. Mas ele nunca deveria servir para validar um CPF.
Empresas são importantes. Carreiras também. Elas contam capítulos relevantes da nossa história, mas não são a história inteira. Nenhuma organização é grande o suficiente para conter tudo aquilo que somos: nossos valores, nossos relacionamentos, nossas escolhas, nossas falhas, nossos aprendizados e aquilo que permanece quando o cartão de visitas deixa de fazer sentido.
Naquele dia, sentado no banco de trás, um menino de quatro anos me lembrou de algo que muitos de nós passamos décadas tentando reaprender. Antes de sermos vendedores, gerentes ou diretores, antes mesmo de pertencermos a qualquer empresa, existe uma identidade que não deveria depender de um logotipo para existir.
Talvez crescer não seja descobrir o que queremos ser.
Talvez seja nunca deixar de saber quem somos.
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