Quando o propósito vale mais que o protagonismo
A diferença entre um time campeão e um time talentoso nem sempre está nos jogadores! …E isso não é só sobre futebol.
Depois da eliminação do Brasil, não faltaram explicações. Houve quem culpasse as substituições, quem apontasse erros individuais e quem falasse em desgaste físico ou emocional. Como acontece após toda grande derrota, as análises rapidamente se voltaram para encontrar um responsável.
Porém, enquanto assistia a alguns dos demais jogos da Copa, uma impressão começou a se repetir. Algumas seleções pareciam jogar em torno de um protagonista. Outras pareciam jogar por um propósito.
Não há problema algum em ter um craque. Toda equipe deseja contar com alguém experiente e capaz de decidir uma partida em um único lance. O risco surge quando o talento individual deixa de ser uma vantagem e passa a ser o plano. Afinal, nenhuma equipe consistente pode depender exclusivamente de uma pessoa para vencer.
Foi então que me lembrei da seleção brasileira do penta, em 2002. É claro que havia talentos extraordinários como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Mas, olhando para aquela campanha, o que mais chama atenção é que o Brasil nunca transmitia a sensação de depender de um único jogador. Os destaques mudavam naturalmente ao longo da competição, porque o coletivo parecia estar acima das individualidades.
Quando o propósito é claro, o protagonismo deixa de pertencer a uma pessoa e passa a ser uma responsabilidade compartilhada.
E percebi que essa reflexão não era apenas ao futebol. Ela explica muito do que acontece dentro de casa, nas empresas e em qualquer lugar onde pessoas precisam caminhar juntas em direção ao mesmo objetivo.
Na paternidade, é comum querermos resolver tudo pelos nossos filhos. Fazemos isso por amor, para protegê-los e evitar que sofram. Mas existe uma armadilha silenciosa: quando toda decisão depende do pai, os filhos aprendem a depender dele, e não necessariamente dos valores que ele tenta ensinar.
Há algum tempo percebi que um dos meus maiores orgulhos deixou de ser quando meu filho faz algo certo diante de mim. O que realmente me emociona é quando ele chega em casa contando que ajudou um colega, tomou uma boa decisão ou fez a coisa certa enquanto eu nem estava por perto. Naquele momento, entendo que ele não agiu apenas para me obedecer. Agiu porque aqueles valores passaram a fazer parte de quem ele é.
No ambiente profissional acontece exatamente o mesmo. Alguns líderes fazem questão de participar de todas as decisões e acabam se tornando indispensáveis. Outros investem tempo desenvolvendo pessoas, distribuindo responsabilidades e construindo uma cultura que continua funcionando mesmo quando eles não estão presentes.
Talvez essa seja a principal diferença entre quem busca ser protagonista e quem constrói um propósito. O primeiro concentra as respostas. O segundo forma pessoas capazes de continuar fazendo as perguntas certas.
Essa foi, para mim, a maior lição desta Copa.
As equipes que estão alcançando mais simpatizantes não pareciam esperar que alguém resolvesse tudo sozinho. Elas transmitiam a sensação de que cada jogador entendia seu papel e colocava seu talento a serviço de algo maior do que si mesmo.
E no fim das contas, o maior reconhecimento que um pai ou um líder pode receber não é ouvir que era indispensável. É perceber que conseguiu formar pessoas capazes de fazer a coisa certa mesmo na sua ausência.
Porque protagonistas podem vencer jogos. Mas o propósito constrói legados.
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