Quando a Experiência Entra em Campo
Quando a Copa do Mundo começou, muita gente estava olhando para os jovens talentos, as novas promessas e a próxima geração do futebol. Eu me peguei observando outra coisa: os veteranos.
Talvez porque eu mesmo já esteja na faixa dos 45+, vivendo aquela fase da vida em que começamos a perceber que algumas portas se fecham, enquanto outras se abrem. A fase em que a experiência passa a valer mais do que a energia, mas em que o mercado nem sempre parece disposto a reconhecer isso.
E nessa primeira rodada da Copa, alguns jogadores me fizeram refletir sobre diferentes formas de envelhecer profissionalmente.
Lionel Messi
Aos 38 anos, Lionel Messi iniciou sua sexta Copa do Mundo marcando um hat-trick na vitória da Argentina sobre a Argélia. Tornou-se o primeiro jogador a atuar em seis edições diferentes do torneio e já igualou a marca de Miroslav Klose, com 16 gols no mundial de seleções. Esses feitos, por si só, já impressionam.
No entanto, quase não foi assim. Houve um momento em que Messi anunciou sua despedida da seleção argentina. Havia frustração, críticas e a sensação de que talvez seu ciclo estivesse chegando ao fim.
Mas ele voltou. E dessa vez voltou diferente.
Menos explosão física, mais leitura de jogo. Menos velocidade, mais influência. Menos necessidade de provar algo para os outros, mais capacidade de fazer o time jogar melhor.
Conheço profissionais assim. Pessoas que passaram por uma demissão, uma reestruturação, uma mudança de mercado ou até mesmo uma crise de confiança. Pessoas que chegaram a pensar que o melhor da carreira havia ficado para trás, mas encontraram uma nova forma de gerar valor.
Messi representa o veterano que se reinventou.
Josimar Dias (Vozinha)
Quem?
Pois é. O até então desconhecido goleiro de Cabo Verde representa algo completamente diferente.
Longe dos grandes continentes e das badaladas ligas de futebol, Vozinha nunca teve a oportunidade de se destacar para o grande público, apesar de atuar há muitos anos em praticamente todos os principais torneios disputados por sua seleção.
E aos 40 anos, na estreia de seu pequeno país em uma Copa do Mundo, foi um paredão gigante sob a meta e um dos grandes responsáveis pelo empate histórico diante da poderosa seleção espanhola.
Enquanto Messi construiu sua carreira sob os holofotes, Vozinha passou décadas longe deles.
Não é a história de alguém que voltou, mas de alguém que finalmente teve a oportunidade de ser visto.
E, quando a oportunidade chegou, estava pronto.
Quantos profissionais existem assim dentro das empresas?
Pessoas extremamente competentes que trabalham durante anos sem reconhecimento, acumulando conhecimento, experiência e maturidade. Quando finalmente surge uma oportunidade maior, muitos se surpreendem com o que elas são capazes de entregar.
Mas a verdade é que elas não ficaram boas da noite para o dia. Apenas demoramos para perceber seu valor.
Luka Modrić
O maestro croata, na primeira rodada contra a Inglaterra, não teve o brilho que marcou alguns dos grandes momentos de sua carreira. Ainda assim, ninguém o observa apenas pelo que aconteceu em um único jogo.
Estamos falando do camisa 10 que levou a Croácia — um país de pouco menos de quatro milhões de habitantes — a competir entre os maiores do planeta, chegando a uma final de Copa do Mundo, e eliminou seleções gigantes ao longo de sua trajetória, inclusive o Brasil nas quartas de final de 2022.
Sua autoridade não foi construída em uma atuação brilhante. Foi construída em décadas de consistência.
Modrić me lembra aqueles profissionais que não precisam provar seu valor toda segunda-feira. Líderes cuja credibilidade foi construída ao longo de décadas tomando decisões difíceis, formando pessoas e entregando resultados quando mais importava.
Sua contribuição vai além da execução.
Ela aparece na influência, na capacidade de orientar, na serenidade diante da pressão e na construção de legado para a próxima geração.
Cristiano Ronaldo
Talvez o contraponto mais interessante dentre os veteranos.
Aos 41 anos, o português continua sendo uma referência global inquestionável do esporte. Seu currículo é extraordinário e sua disciplina é admirável.
Ainda assim, assistindo ao jogo de Portugal, fiquei pensando em um risco que todos nós corremos conforme envelhecemos profissionalmente: confundir reputação com contribuição.
Em algum momento da carreira, podemos começar a acreditar que aquilo que fizemos no passado é suficiente para justificar nossa relevância no presente. Mas não é.
Mesmo quem é sênior precisa continuar se movimentando em campo. Precisa se atualizar, desenvolver novas habilidades, aprender novas ferramentas e permanecer aberto às transformações do mundo (por exemplo, a Inteligência Artificial).
Toda geração enfrenta mudanças que desafiam as competências que um dia a tornaram bem-sucedida. A diferença é que alguns profissionais encaram essas mudanças como uma nova oportunidade de aprendizado, enquanto outros permanecem esperando que o mercado continue funcionando como funcionava vinte anos atrás. Esperando a bola ser cruzada na entrada da área.

O Jogo Continua
A primeira rodada da fase de grupos já passou e todos eles terão que continuar derramando suor por suas bandeiras.
O mundo respeita nossa história, mas continua observando nossa capacidade de contribuir no dia de hoje.
Talvez essa seja a maior lição que esses veteranos estejam nos oferecendo:
- Existe o profissional que se reinventa, como Messi.
- Existe o profissional que finalmente é reconhecido, como Vozinha.
- Existe o profissional que transforma experiência em legado, como Modrić.
- E existe aquele que corre o risco de viver apenas do que já conquistou.
No fundo, essa reflexão não fala apenas de futebol. Fala de carreira, liderança e até de paternidade.
Porque ser pai também é uma jornada de senioridade.
Quando nossos filhos são pequenos, eles precisam do nosso cuidado. Mais tarde, passam a precisar da nossa presença. Depois, passam a precisar da nossa sabedoria.
A cada fase da vida somos convidados a trocar protagonismo por influência, controle por orientação e autoridade por exemplo.
Talvez seja por isso que essa Copa esteja me chamando tanta atenção.
Ela está mostrando que envelhecer não significa perder valor, mas descobrir novas formas de gerar valor.
Talvez a verdadeira senioridade não seja sobre quanto tempo passamos em campo, mas sobre nossa capacidade de continuar contribuindo enquanto o jogo muda ao nosso redor.
E você?
Qual desses perfis mais se parece com a fase que você está vivendo hoje: o veterano que está se reinventando, o que finalmente está sendo reconhecido, o que está construindo legado ou aquele que percebeu que precisa voltar a contribuir antes de depender apenas da própria história?
Gostaria de ler sua opinião nos comentários.
Um grande abraço,
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