Nove meses para acontecer
Eu já passei por duas gestações na minha carreira e não estou falando especificamente dos meus filhos.
Nas duas últimas ocasiões, entre um trabalho e outro, foram exatamente nove meses de espera até voltar ao mercado.
A primeira foi em 2020, em plena quarentena. O mercado estava longe de ser normal e, embora boas oportunidades aparecessem, muitas empresas ainda preferiam profissionais de São Paulo. Eu não queria sair de Minas Gerais, e isso acabava pesando.
Mas eu também não fiquei esperando sentado.
Durante aquele período, mantive contato com headhunters, participei de processos e, em paralelo, fazia meus próprios follow-ups pelo LinkedIn com os gestores das vagas. Era aquele velho exercício de tentar chegar até quem realmente precisava entender o que eu poderia entregar.
Em outras palavras: eu estava fazendo o meu trabalho de “vender o meu peixe”.
Na época, funcionou. Depois de nove meses, o novo emprego veio. E a comemoração foi tanta que, algum tempo depois, veio também meu segundo filho.
Anos depois, a história resolveu se repetir. Dessa vez, pouco antes do Natal.
Mas eu já tinha experiência em buscar emprego e fiz tudo o que imaginava que precisava fazer. Tive ajuda de consultoria, busquei orientação, adaptei o currículo para cada vaga, recebi endossos, conversei com pessoas, participei de entrevistas e tentei melhorar a cada processo.
Estava confiante e estabeleci uma meta: voltar a trabalhar até o Dia do Trabalho.
Algumas portas se abriram. Outras não. E não saiu como esperado.
Engraçado que, depois de uma mudança cultural tão grande como a popularização do trabalho remoto — não para mim, que já atuava em home-office desde 2012 —, confesso que, perceber que, às vezes, a localização pesava mais do que a experiência, era bastante frustrante.
Até que chegou um momento em que decidi pausar a consultoria e simplesmente aproveitar as férias com meus filhos.
Não foi uma estratégia de carreira. Apenas uma decisão de vida. Eu precisava respirar um pouco.
Porém, foi justamente aí que as coisas começaram a acontecer.
E isso me lembrou de quando estávamos tentando ter nosso primeiro filho.
Eu e minha esposa passamos por um período em que tentávamos descobrir qual seria o momento certo. Mas, por uma condição específica do ovário dela, não era tão simples saber exatamente quando estava ovulando.
Então acompanhamos mês a mês. Planejamos. Tentamos acertar o timing. E nada.
Até que, em algum momento, antes do Natal, o exame mostrou que não havia previsão alguma. Cansamos de tentar controlar aquilo que não estava sob nossa alçada. Baixamos a guarda, seguimos a vida e paramos de pensar tanto no assunto.
E algumas semanas depois, descobrimos que estávamos grávidos. Justamente quando já não estávamos mais tentando acertar o momento.
E percebi um paralelo curioso com essa minha recolocação.
Depois que deixei a ansiedade de lado, foi quando as melhores oportunidades apareceram. Comecei a evoluir mais nas entrevistas. Fui entendendo melhor como contar minha própria história e, talvez mais importante, parei de sentir que precisava fazer alguma coisa acontecer imediatamente.
Cheguei, inclusive, a aceitar uma proposta de um velho parceiro. Parecia que finalmente estava resolvido.
Só que a vida ainda tinha um último plot twist reservado.
Pouco antes de sacramentarmos tudo, reacendeu uma oportunidade ainda melhor: trabalhar 100% remoto, em home-office, atuando com o time global de uma multinacional do meu setor. Era essa!
Mas não foi imediato.
Porque conseguir a proposta não significava poder sair anunciando para todo mundo. Tinha muita burocracia. Entre o aceite e o momento em que finalmente pude iniciar, e assim contar que estava começando uma nova fase, passaram-se aproximadamente 30 dias.
Curiosamente, foi praticamente o mesmo tempo que eu e minha esposa levamos, anos atrás, entre descobrir que nosso primeiro filho estava a caminho e finalmente contar para todo mundo que estávamos grávidos.
E, por incrível que pareça, voltei a trabalhar no Dia do Trabalho. Mas no feriado dos Estados Unidos, que é para onde eu reporto.
Parece que a vida gosta mesmo de umas coincidências e pegadinhas…
Ou será apenas a lógica da vida nos lembrando que nem tudo é uma equação perfeita?
No fim, acho que a gente precisa fazer a nossa parte: preparar, planejar, acompanhar, insistir e tentar acelerar. Mas algumas coisas simplesmente precisam de tempo.
E talvez, em algum momento, a gente precise entender que fazer a nossa parte também significa saber quando parar de tentar controlar o resultado.
Foi assim com meu primeiro filho e, de um jeito bastante improvável, foi assim também com a minha recolocação.
Agora, espero que a conta esteja finalmente fechada.
Porque duas gestações já foram suficientes para minha vida e para minha carreira.
E, como a vasectomia já está feita, agora espero sinceramente que eu nunca mais precise passar por nada disso de novo.
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